O mundo de Fausto Viana: entre figurinos, trajes e pesquisas


Por Tainá Vasconcellos* e Maria Celina Gil*


Incansável e com a criatividade a todo vapor, Fausto Viana é daquele tipo de persona que desejamos ter sempre por perto – seja pela boa energia ou pelos bons papos. Pensando em ter um pouco mais de proximidade com o seu processo criativo, envolvimento com o figurino, e conhecer um pouco mais sobre todas as frentes de trabalho e pesquisa com as quais atua, o blog da Editora Estação das Letras e Cores entrevistou o professor e pesquisador que já é autor da nossa casa há um bom tempo e aqui tem 9 livros publicados além de ser parte do nosso Conselho Científico. Aqui vamos  falar de figurino, trajes, pesquisa, memória e moda.

  1. Como surgiu o interesse pelo estudo do figurino teatral?

Engraçado como são as coisas… Eu fazia teatro amador como ator e tinha muito interesse na conservação de móveis antigos, em antiguidades em geral.  Na época em que eu fui fazer vestibular, tive muita vontade de fazer museologia. Vi que tinha um curso ótimo na Bahia e pensei em estudar lá. Mas era longe, para começar, e minha família achava que era uma opção ruim. Claro que eu estava acostumado com a casa do papai, né? Então, eu mesmo achei muito difícil me virar sozinho lá… E fui fazendo teatro ao longo do colegial e me apaixonando cada vez mais. Teatro é uma arte apaixonante! Entrei na Escola de Comunicação e Artes de São Paulo (ECA-USP) em 1989 para estudar Artes Cênicas. Lá fui ter contato com o guarda-roupa da escola, que ainda existe, e foi fascinante vivenciar esta experiência. A escola tinha – e tem – um acervo muito grande. Foi paixão ao ácaro à primeira vista (risos).  Comecei fazendo trajes para colegas na escola e para as minhas próprias produções, que eu também dirigia, depois. E não parei mais. Nem espero parar tão cedo.

  1. Além do traje de cena, você também pesquisa moda e museologia. De que modo esses três assuntos dialogam entre si?

Pois é, a museologia estava lá no fundo, no desejo interno, sabe? E percebi que os trajes que nós ainda tínhamos-  tanto na ECA-USP como na cidade e no país como um todo- precisavam de conservação, antes que mais uma camada da nossa memória sumisse, desaparecesse. Eu trabalhava no Centro de Memória da Ópera, ali na Barra Funda, com sede no Theatro São Pedro. O acervo tinha vindo da Casa Teatral Temaghi. Era uma coleção incrível, mas que tinha sido bastante mexida e manipulada… Foi um enorme aprendizado na pele, no couro, com muita “pancada”, muita briga, muita luta para entender como o descaso assola a memória e os trajes. Trajes são frágeis mesmo. Guardar uma pedra errado por dez anos não provoca nenhuma alteração. Um traje guardado errado por dez anos vai simplesmente destruí-lo.

Foi aí que eu vi que museologia e traje de cena tinham tudo a ver. E que a moda era também muito importante neste contexto. Veja, não é porque eu estudo traje de cena que eu acho que os outros acervos de trajes tenham que ser destruídos. Seria um pensamento muito egoísta, né? Porque quem conserva traje de cena conserva traje social ou traje profissional, os procedimentos museológicos são os mesmos. Como eu já estava na Universidade de São Paulo como professor (eu entrei em 2003), achei que era o momento de começar a pensar em implementar um curso ou algum treinamento que pudesse ajudar a conservar acervos pelo Brasil. O Núcleo de traje de cena, indumentária e tecnologia, que foi fundado em 2012 e que continua ativo, tem este objetivo também. Nós queremos formar pessoas para atuar nestas áreas de conservação – e não só de artes cênicas, claro, mas de moda e têxteis – no país como um todo. É pretencioso, mas necessário.

  1. De onde vem o impulso pela escrita?

Vem da leitura! Explico: eu sempre consegui material bibliográfico para trabalhar com figurino e conservação em outros idiomas, mas muito pouca coisa existia em português. Eu senti que era necessário publicar, formar pessoas, expandir conhecimento, mostra para as pessoas que estas áreas eram importantes… “O país tem famintos e não dá para pensar em museu agora”? Uma coisa por vez. Eu sei que existem famintos, eu sei. Que nós somos um país miserável? Eu sei também! Mas veja, nossa ideia de país vai mudar, tem que mudar! É neste sentido que eu trabalho- de documentar o que acontece agora para quem virá no futuro e talvez vá encontrar uma situação mais favorável… Porque a gente hoje não tem conforto algum, mas ainda tem trajes por aí, ainda tem peças por aí que eu não sei se sobreviverão…

Tudo aqui no Brasil é mais importante que a memória, gente! Não ter memória é importante para muita gente poderosa. Não tendo memória, registros históricos, você não aprende com o que passou; não se reconhece como nação, não vê o percurso percorrido, não vê de onde você saiu e onde vai chegar. Isso interessa muito para as camadas dominantes. Dominar a cultura, no sentido de guardar cultura só para você, é uma forma de dominação cruel. Você tira do outro o direito de crescer com a experiência do povo ao qual você faz parte.  Ainda hoje a gente ouve dizerem por aí: Brasileiro é vagabundo mesmo, brasileiro é preguiçoso, tem sempre que ter alguém puxando para ir para a frente, e outras coisas assim. Esse discurso é bom para quem domina: manter a figura do grande pai, bondoso, que sabe o caminho que você tem que trilhar. E ele te obriga a trilhar aquele caminho da ovelha. Por isso eu escrevo: para documentar. Para registrar, para mostrar que existe ou existiu.  E também porque eu amo escrever!

  1. Como tem sido o contato com profissionais e pesquisadores de outros países? E como isso tem influenciado a sua pesquisa?

Eu acho que sou um privilegiado, eu tenho que admitir isso. Eu tenho conhecido e trabalhado com pessoas do mundo todo… Eu não vou citar nomes porque sempre acontece de faltar alguém. Tem tanta gente boa que não dá para citar em um espaço reduzido. Mas tenho trabalhado fortemente com museus e pessoas de escolas de Portugal, da Inglaterra e da França. Na Espanha, na Finlândia, na Holanda… No Japão fui muito bem recebido, uma experiência incrível. Que modo de pensar o mundo, a vida, o dia a dia eles têm…

Esse contato todo com o exterior causou uma virada no meu pensamento, sabe? Acho que senti isso de uma forma mais intensa em um congresso sobre traje de cena em Helsinque, em 2015, em que apresentei um trabalho sobre um performer brasileiro, o T. Angel. A curiosidade, o interesse pela nossa atividade teatral é muito intenso, na mesma proporção que muitos de nós se interessam pelos trabalhos no exterior. Isso refletiu muito na minha pesquisa, no meu modo de olhar melhor para o que nós fazemos aqui.  Tenho cada vez mais desejo de estudar o nosso presente e o nosso passado, e aquelas questões que já falei: por que as pessoas do poder não querem que a gente conheça nosso passado? Porque a pesquisa sobre negros, indígenas, travestis, LGBTs incomoda tanto?  Porque tudo que foge ao branco ortodoxo incomoda?

Quero muito estudar o Teatro Brasileiro de Comedia dos anos 50, o Eduardo Victorino, um encenador que fez um trabalho incrível no Rio de Janeiro em 1912, mas também quero estudar o alternativo, aquilo que hoje traz inovações… Mas as pessoas adoram dizer: ele estuda o passado. Não, não: eu estudo o que me interessa e o que eu acho que pode servir de registro no futuro.

Isso é uma coisa que o exterior mostra muito para a gente: valorize o que é seu, o que você tem, o que pode ensinar algo de novo para alguém, seja no seu próprio país ou fora dele.

  1. A formação de novos pesquisadores é também uma preocupação sua. Por que isso é tão importante?

Primeiro porque é minha obrigação como professor universitário, e uma obrigação que eu adoro. Eu já percebi que eu não sou eterno e que vou morrer uma hora dessas, o que é absolutamente normal no meu entendimento. Só que acredito que tenha um trabalho que vai servir às gerações futuras, não só para este momento. Mas penso também no agora: o Brasil é enorme, gente, eu não dou conta de atender todo mundo que precisa. Por isso seleciono bons alunos, bons candidato ao mestrado e doutorado, para essas pessoas serem novos agentes, novos divulgadores do nosso trabalho, trazendo força e vigor para as pesquisas do Núcleo e também para formar uma rede de pesquisadores sobre os nossos temas.  E não quero gente que diga “amém” ao que eu proponho- quero gente que me questione, que pense, que provoque, que tenha propostas e que não tenha medo de quebrar a cara, como eu mesmo já quebrei várias vezes.

Quanto mais gente pesquisando, melhor. Neste sentido, meus alunos estão ocupando lugares incríveis em universidades do país todo! De novo, não falo nomes para não causar ciúmes, né? Mesmo porque eu adoro todos eles. E estamos formando uma rede nacional de pesquisadores em traje de cena… Isso é muito legal! E são pensadores autônomos, que pensam sobre seus trabalhos como desejam, sem seguir alguma cartilha minha. Acho que isso é que faz a colaboração entre nós todos ser tão intensa!

  1. Em quais projetos você está trabalhando agora? O que está por vir?

Este ano eu estou fazendo um projeto especial na própria USP, no Instituto de Estudos Avançados, sobre trajes brasileiros nos séculos XVII e XVIIII. E para minha própria loucura, trajes dos “brasileiros” no período pré-colombiano. Vai sair uma nova edição incrível de Dos bastidores eu vejo o mundo, aquela série que fica disponível online no banco de livros da USP, sobre traje de cena LGBT. Pela Estação das Letras e Cores, gostaria de publicar ainda este ano Os trajes dos ritos afro-brasileiros – um breve manual de conservação têxtil, dando continuidade temática ao Trajes da Igreja católica.  Mas vem tanta coisa por aí que depois eu conto, senão me chamam de workaholic.

  1. E uma última pergunta, que é uma curiosidade pessoal. Onde você compra suas meias?

Essa é muito legal. Eu sei que os alunos comentam. As meias são minha “via de expressão”: é onde eu libero o humor, a piada, uma certa liberdade no vestir… E me divirto com isso. Comecei comprando numa rede de lojas de meia em Portugal quando estive fazendo um pós-doc lá em 2008. Meias ótimas e que duram bastante. Comprei muitas vezes lá e sempre compro quando vou, mas em Londres agora vende um monte! E quase caí duro outro dia quando entrei em um shopping aqui em São Paulo e achei uma loja só de meias e com pezões grandes! Sim, porque meia divertida de tamanho 44 não se acha em qualquer canto, né?

A entrevista foi realizadas por:

*Tainá Macêdo Vasconcelos é doutoranda em artes cênicas na ECA/USP, e professora da Universidade Federal do Amapá. Atualmente pesquisa trajes de cena do teatro popular.

**  Maria Celina Gil é mestranda na Universidade de São Paulo. Sua pesquisa investiga os potenciais narrativos do bordado nos trajes de cena.


Por Tainá Vasconcellos* e Maria Celina Gil**

Incansável e com a criatividade a todo vapor, Fausto Viana é daquele tipo de persona que desejamos ter sempre por perto – seja pela boa energia ou pelos bons papos. Pensando em ter um pouco mais de proximidade com o seu processo criativo, envolvimento com o figurino, e conhecer um pouco mais sobre todas as frentes de trabalho e pesquisa com as quais atua, o blog da Editora Estação das Letras e Cores entrevistou o professor e pesquisador que já é autor da nossa casa há um bom tempo e aqui tem 9 livros publicados além de ser parte do nosso Conselho Científico. Aqui vamos  falar de figurino, trajes, pesquisa, memória e moda.

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