Experiências colaborativas geram metodologias em projetos de Moda e Design


O livro Moda e Projeto – Estratégias Metodológicas em Design, de Maria Celeste Sanches apresenta estudos dos campos do Design, da Moda, da Comunicação e da Pedagogia. A autora demonstra como desenvolveu sua metodologia de projetos de forma compartilhada com colegas de áreas correlatas como composição visual, modelagem, tecnologia da confecção etc.

Maria Celeste é doutora em Ciências (Arquitetura e Design) pela Universidade de São Paulo e doutora em Diseño, Fabricación y Gestión de Proyectos Industriales pela Universitat Politècnica de València (UPV). A autora do livro iniciou sua pesquisa na Universidade Estadual de Londrina(UEL) onde lecionou por 17 anos. Atual colaboradora da Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda (ABEPEM), ela lançou o livro durante o congresso científico 13º Colóquio de Moda, em outubro, em Bauru-SP.

No livro Moda e Projeto, uma das ferramentas propostas é o Mapa de Categorias Expressivas. Ele se baseia em uma vivência de classe construída de forma colaborativa: uma tática que consiste em utilizar uma associação sensorial dos envolvidos no projeto como estímulo para facilitar abstrações expressivas. A ideia é usar elos sensoriais, confirmada em bases teóricas da pedagogia, para ajudar a construir uma “ponte cognitiva” entre um conceito expressivo e a articulação dos elementos de configuração do produto.

O livro lançado pela Estação das Letras e Cores Editora facilita o enfoque sistêmico para o ensino/aprendizagem de projeto não só para o vestuário de moda. Desta forma, está destinado a professores e também estudantes de outros segmentos do design.

Desde quando você tem interesse em metodologias para o Design de Moda? Descobrir vínculos e conexões, percebendo os efeitos destas relações, sempre foi instigante para mim. Sou filha de uma educadora visionária que incentivou a minha curiosidade pelas interações e guiou minha forma de aprender sob um pensar sistêmico. Imagino que isso tenha propiciado o meu entusiasmo pelo processo projetual, esse trajeto marcado pela articulação, integração e transformação.

Esta inclinação pessoal se conectou à trajetória investigadora logo no início da minha carreira docente. Quando comecei a trabalhar na UEL, em disciplinas relativas à concepção de produtos de moda, busquei diretrizes metodológicas no campo do design, uma vez que minha formação era essa e o colegiado tinha uma forte inclinação a este enfoque. Contudo, na literatura da área, as análises sobre design de moda eram extremamente escassas, o que, naturalmente, me conduziu a explorar este espaço de interseção entre moda e design. No decorrer desta trajetória, as reflexões sobre o âmbito de ensino/aprendizagem se imbricaram à minha pesquisa, pois me interessava, especialmente, identificar um instrumental metodológico que facilitasse a prática projetual entre os discentes.

No trajeto de investigações, a experiência em sala de aula e com empresas do setor me mostraram a diversidade de contextos projetuais que permeiam a área de moda, consolidando a minha confiança em uma abordagem metodológica sistêmica e flexível, na qual o estudante pudesse ter autonomia para conectar as ações de projeto e a possibilidade de adaptar as estratégias a cada projeto.

No Mapa de Categorias Expressivas a tática consiste em utilizar uma associação sensorial como estímulo para facilitar abstrações expressivas e construir uma “ponte cognitiva” entre um conceito expressivo e a articulação dos elementos de configuração do produto.

Quais as dificuldades que você observou no processo de desenvolvimento de produtos?

Durante todos estes anos de sala de aula e de trabalho conjunto com outros professores, participei do processo de construção do pensamento projetual de muitos estudantes de design de moda. A interação contínua com as dificuldades, as facilidades e as possibilidades apresentadas nas práticas de projeto indicavam, principalmente, dois principais pontos: auxiliar a gestão de informação para delimitar os objetivos projetuais e facilitar a síntese e a transposição de atributos formais/visuais aos artefatos projetados.


É importante destacar que, embora esteja pontuando as fragilidades aqui, as observações em classe também apontavam vantagens e possibilidades. Por exemplo, como a minha atuação docente conectava as áreas de projeto e de composição visual, foi possível constatar as vantagens do pensamento visual como estratégia para organizar as informações e estimular a síntese de conceitos.

De que modo você chegou a desenvolver uma metodologia? Tem algum exemplo? As estratégias metodológicas que proponho evoluíram no decorrer de uma longa trajetória de pesquisa aliada à prática docente. Um caminho trilhado de maneira completamente colaborativa, em que os estudantes aportavam suas percepções e no qual, muitas vezes, a aula de metodologia do projeto era compartilhada com colegas de áreas correlatas, como composição visual, modelagem, tecnologia da confecção etc.

Por exemplo, no Mapa de Categorias Expressivas (uma das ferramentas propostas no livro), a decisão de usar conceitos relativos às sensações de luz, temperatura, toque e gesto, como polaridades da escala de diferencial semântico, baseou-se em uma vivência de classe: uma tática que consistia em utilizar uma associação sensorial como estímulo para facilitar abstrações expressivas. Assim, se a intenção era transmitir uma sensação acolhedora, eu indagava ao aluno: se “acolher” tivesse temperatura, seria quente, frio, morno? E se houvesse luz, como seria? A partir das percepções subjetivas de temperatura e luz, discutia-se sobre cor. Da mesma forma, relacionava-se textura ao toque e o movimento de um gesto às estruturas formais. A ideia de usar elos sensoriais, confirmada em bases teóricas da pedagogia, evidenciou que esse tipo de associação ajudava a construir uma “ponte cognitiva” entre um conceito expressivo e a articulação dos elementos de configuração do produto.


O livro auxilia a diversificação de métodos entre designers e professores de outros segmentos do design, além do vestuário de moda.


Como você acredita que seus estudos/livro possam contribuir nos cursos de moda no Brasil? Considerando que o livro propões um olhar multifocal, explorando uma plataforma teórica e aplicações práticas que vinculam conceitos provenientes do design, da moda, da pedagogia e da comunicação, acredito que pode facilitar o enfoque sistêmico para o ensino/aprendizagem de projeto nestes cursos. Logo, creio que pode ajudar tanto professores quanto estudantes.

E, possivelmente, auxiliaria a diversificação de métodos entre designers e professores de outros segmentos, uma vez que as ferramentas propostas poderiam se estender a outros tipos de artefatos, além do vestuário de moda.

Como foi desenvolver a pesquisa com orientação no Brasil (FAU-USP) e na Espanha (UPV- Valência)? Cumprir dois doutorados simultaneamente, em países distintos, foi um exercício constante de gestão. Precisei administrar a interação entre os orientadores, os programas de pós-graduação, as culturas e a minha experiência docente na área. É claro que existiram percalços, mas sobretudo, houve uma ampliação de perspectiva. A integração de tantos fatores enriqueceu muito a pesquisa.

Ainda que minha vivência prévia de pesquisa já fosse extensa quando iniciei o doutorado, tenho certeza que essa formação dupla multiplicou e renovou minhas análises e inferências.

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